A sessão foi criada por sugestão do amigo jornalista, roteirista e cineasta Penna Filho, a título de reverenciar a memória do jornalista, televisista, radialista, cronista, escritor carioca Sérgio Porto e seu heterônimo Stanislaw Ponte Preta, criador das Certinhas do Lalau no jornal Última Hora, do Rio de Janeiro.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18






















As Certinhas do Oleari + Poesia Erótica - Rodrigo Mello Rego / "No Corpo Feminino, Esse Retiro" e "A Bunda" - Carlos Drummond de Andrade

6 de julho de 2017




É redundância escrever ter sido Carlos Drummond de Andrade um dos mais importantes poetas brasileiros.. Foi ele o primeiro grande nome do pós-movimento modernista com a edição, em 1930, de "Alguma Poesia", publicando, ao longo da vida, cerca de 70 volumes com seus poemas.

Provocador, desafiador bem humorado, como jornalista no antigo "Jornal do Brasil", num dos seus artigos escreveu a palavra bunda - tabu naquela época - substituída pelo secretário de redação pela palavra traseiro...

Entendo que o revide se deu, anos mais tarde, quando Drummond atingiu o auge da fama e censor nenhum ousaria tocar nos versos de "A bunda, que engraçada"...

Vários dos seus poemas foram marcados por forte dose de erotismo, campo em que incursionaram também muitos dos grandes poetas, daqui e de além mar, como Manoel Bandeira, Glória Sartore, Adélia Prado, Hilda Hilst, Melo e Castro, Mário Quintana, Floberla Spanca, Fernando Pessoa e até Luiz de Camões.

Aqui, perto de nós, abrindo este espaço que se repetirá a cada dez dias, de Ocinei Trindade, o Portal Dom Oleari Com teve a ousadia de publicar "Ode ao Falo".

Que, por ignorância, intemperança e intolerância, valeu uma suspensão por 24 horas das páginas do Editor Chefão no Facebook, embora o poema de Ocinei Andrade eu só tenha publicado aqui no Portal, não no Facebook.

Hoje, reverenciamos Carlos Drummond de Andrade, morto há 30 anos - 17 de agosto de 1987 - publicando dois dos seus poemas eróticos com uma curiosidade: o poeta parecia ter obsessão pela palavra bunda, desde o episodio no "Jornal do Brasil", repetida em pelo menos em dois dos seus poemas:
- "A bunda, que engraçada" e "No corpo feminino, esse retiro".
Vamos assim, pois, aos dois poemas citados (Rodrigo Mello Rego).


A BUNDA, QUE ENGRAÇADA

Abunda, que engraçada,
Está sempre sorrindo. nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em retundo maneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda.

II

NO CORPO FEMININO, ESSE RETIRO


No corpo feminino, esse retiro
- a doce bunda - é ainda o que prefiro.
A ela , meu mais íntimo suspiro
pois tanto mais a apalpo quanto a miro. 

Que tanto mais a quero, se me firo
em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento... Então, se ponho e tiro

a mão em concha - a mão, sábio papiro
iluminando o gozo, qual lampiro
ou se dessedentado, já me estiro

me penso, me restauro, me confiro
o sentimento da morte eis que o adquiro:

de rola, a bunda torna-se vampiro.



Rodrigo Mello Rego
é jornalista,
Tem curso de Mestrado de Estudos Literários e é
pesquisador de literatura erótica
COPYRIGHT© 2007-2014 Don Oleari Ponto Com - Todos os direitos reservados - Aldeia Verbal Produções e Jornalismo.